sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Caminhar

 Vamos andar por esse mundo, vamos pisar esse chão, de pés descalços, à passos curtos,
aproveitando cada pisada, cada pedra, cada poeira.
Vamos correr com o vento, saltar de contentamento, pular obstáculos e poças de lama,
deixando rastros, fazendo barulho onde há folhas secas e silêncio onde há crianças dormindo.
Vamos pisar em brasas, espinhos, cacos de vidro, flores, nuvens e estrelas,
escalando montanhas, escorregando em precipícios, desbravando matas virgens e solos úmidos.
Vamos entrar em templos, cabarés, hospícios, azilos, quartos, cozinhas, salas, cavernas e cemitérios,
chutando latas, bolas e medos.
Vamos dançar valsas, tangos, boleros, sambas, forrós,
dobrando os dedos, marcando o compasso.
Vamos trocar a marcha, ficar na ponta dos pés e olhar por cima dos muros, levar tropeços, inventar novos jeitos de andar,
trilhando estradas, descobrindo largos atalhos e estreitos caminhos,
Vamos caminhar, deixando marcas em asfaltos cinzas, pegadas em areias brancas, até onde o passo alcançar,
caminhando, caminhando, subindo aos céus, descendo aos infernos, pés feridos, cançados, calejados, mas sempre revigorados quando alcançam as águas do (a) mar.

Thamára M.



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Despertar em morte


...Mais um corpo entregue à paixão, quente ilusão, desilusão. E a morte chega, onde está o fogo?
Teus lindos olhos afagam-te a doçura morta,
Entre seus rubros lábios cortas uma última palavra prestes a escoar...
Não mais invasivas mãos em minhas coxas,
Nem apertos e braços a me enlaçar.
Não mais pulsa impulsos teu peito, nem gemidos, agora não há.
Desperta-te friamente, tristemente vazia,
Deixando-me em agouros de noites sombrias, gostos, gestos, beijos, suor, cheiros impregnados em meus poros...
Toda nossa vontade ardente e sua indiferença inerte aos meus pés,
Seu corpo (meu corpo) tênue lançado ao chão...
E ainda assim, sempre assim, eternamente assim
Seu lindo olhar a me fitar, desvendar, desnudar,  a me amar...?
Já sem nenhuma razão.

Thamára M. 




terça-feira, 15 de novembro de 2011

"Linhas paralelas se encontram no infinito?" (CFA)

Existo eu cá, e você lá.
Muitas vezes eu por aí, e você aqui.
Mas neste vai e vem, onde nos encontramos?
Pronta para partir, estou na estação, ao longe os apitos anunciam a vinda do trem, o dia está nublado e ele surge ao longe interceptando um raiozinho indiferente de sol. Respiro fundo, finalmente, já estava bem atrasado... Embarco e sento ao lado da janela, gosto de ficar perto de janelas, principalmente quando estão abertas, mas neste dia de inverno elas estavam fechadas e achei melhor conservar assim, não queria incomodar quando você sentou-se ao meu lado e parecia estar com muito frio. Acomodou-se e instintivamente olhamo-nos e na constatação do rosto eu vi você, meu amor. Sorrimos, olhos nos olhos, paramos estarrecidos, embevecidos com nosso reencontro. Destino, coincidência, forças cósmicas que se movem impulsionando a união de seres com ligação transcendental? Meu Deus, quanto tempo se passara e tudo voltou a transbordar dentro de mim, me levando a conclusão de que nada passou a não ser o próprio tempo.
Então, sem precisar usar palavras, como que em agradecimento àquela viajem, àquele encontro, nos abraçamos demoradamente e esquecemos as horas, as tristes horas que nos separaram e nos fizeram outrora ter que dizer adeus.
O sol se impôs e eu abri a janela, você quis sentir comigo o frescor do vento que por ela entrava. 
Na chegada não houve despedidas, descemos juntos e de mãos dadas caminhamos na mesma direção... E assim percorremos os caminhos sinuosos do restante de nossos dias...
Quantas chegadas e partidas ainda teremos que viver antes de embarcarmos no mesmo trem?

Thamára M.


sábado, 5 de novembro de 2011

Nas coisas simples da vida, Você

Você me pergunta como vou vivendo...
Respondo-te que sobrevivo, sem grandes alegrias e com infalíveis tristezas, pois hoje, sem você, até as coisas mais simples, cotidianas, tornaram-se extraordinariamente difíceis.
Como é penoso acordar e não ter-te ao lado a me desejar bom dia, a cama é fria, ajeito a cama fria sem você para arrematar os cantos.
Preparar o café e não ouvir-te me pedir que lhe sirva leite quente e pão moreninho, da beiradinha da forma.
Olhar-me no espelho e não ver-te junto a mim, palpitando o meu visual.
Ir para o trabalho sem receber teu beijo matinal e ao longo do dia as mensagens afirmando nossa felicidade.
No almoço, sentar-me à mesa e não ter você a reclamar que queria o arroz mais molhadinho, e dizer que mesmo assim prefere a comida que eu preparo.
Ao fim da tarde, chegar em casa sem você para partilhar o resumo diário, meu e seu. Depois, na varanda, assistir anoitecer, olhando o céu a contar estrelas... 
Apagar a luz, no escuro deitar-me e não sentir-te os abraços, as carícias e tua voz ao meu ouvido dizendo "eu te amo"...
Assim vou vivendo, solitária, lembrando você, até quando o tempo se fartar de me negar até o gozo das coisas simples da vida. 


 Thamára M.